19/07/2017

DIÁLOGOS #17

Hospital da Luz, Piso de  obstetrícia, consulta de revisão pós parto:

Dra.. P - Sara pode despir-se para a examinar...

(a bela da Sara despe-se alegremente depois da balança ter mostrado os generosos 19 quilos perdidos desde que engravidei e deita-se na maca)

Dra.. P - Sara eu ainda não a consigo examinar de cuecas vestidas.

E desatámos as duas a rir... é isto que a privação de sono faz às pessoas, retira-nos o discernimento mas não nos tira a boa disposição!



12/07/2017

QUIMIOTERAPIA, ESCLEROSE SUBCONDRAL, CATARATAS E... DOIS RECÉM NASCIDOS!





Se calhar bastava que uma destas palavras se cruzasse na sua vida para colocar muita coisa em perspetiva. Se calhar acharia que a vida por vezes é demasiado injusta por tentar ensombrar aquele que seria o viver de um sonho. Mas o que fazer quando estas palavras se reúnem todas no espaço de um mês nas nossas vidas? Como lidar com diagnósticos que não se entendem, com doenças que se desconhecem, com operações que os médicos apelidam de banais mas que também podem correr mal, com dois seres pequeninos que nos sugam todos os segundos das nossas vidas? Como?

Nos últimos meses das nossas vidas vi-me privada do sono… desde os tratamentos de fertilidade que não sei o que é dormir mais de 3 horas seguidas e nos últimos tempos reduziram para 2 horas ou até mesmo 1 hora. Ora isto dura há mais de um ano… um ano sem dormir profundamente. Um ano em que me deitava a acreditar no sonho… hoje vivo-o. Hoje é real e os nossos bebes é que fazem com que todas as outras palavras sejam mais suportáveis.

Ninguém pode viver uma felicidade plena se no seio familiar existem tantas coisas por resolver, tantas palavras feias que não sendo ditas se sentem e estão sempre lá… adormecidas. Os nossos bebes têm sido a ancora que nos permite estar à tona sem sucumbir ao fundo do ma. São eles que têm permitido que tudo seja mais suportável… (chorar na surdina também ajuda… comigo ajudará sempre).

As palavras são feias mas o amor que nos une será (terá de ser) sempre maior para que tudo se mantenha unido em torno de um sonho tao bonito e que nos está a ser possível viver.

Que as palavras sejam apenas isso… palavras! Aguardemos que o vento as leve (e tudo o que elas implicam) para bem longe de nós e que nos deixe apenas com os nossos bebes!

nota- está tudo bem com os nossos pequeninos, obrigada pelas mensagens de preocupação.

04/07/2017

22 JUNHO 2017 - O DIA EM QUE AS NOSSAS VIDAS MUDARAM

Na ultima consulta com a Dra. Paula Arteaga falámos dos prós e contras de prolongar a nossa gravidez por mais uns dias. "O bom é inimigo do optimo" dizia a Dra. e os valores do ácido úrico continuava a subir (fruto de um fígado massacrado por doses grandes de medicação dos tratamentos de fertilidade), uma tensão que teimava em subir (no consultório chegaria aos maravilhosos, not, 18/10) e um risco de pré-eclampsia que colocaria tudo em risco. Não era tempo de hesitações e naturalmente o dia 22 de Junho de 2017 foi colocado em cima da mesa como o dia em que tudo mudaria para nós: a chegada dos nossos Francisco & Pedro. O dia em que o sonho teria dois rostos para amar de uma forma até ali desconhecida por nós.
Saímos do gabinete com sensações diferentes: eu, ansiosa para que o momento chegasse rapidamente,  mas o João, o João estava num pânico dormente (aparentava calma mas eu lia nos olhos dele que não tinha pensado que aquele dia estaria tao proximo).
Era segunda feira e tinhamos até quinta para apaziguar corações, prepararmos o (pouco) que ainda faltava  fazer ou arrumar e esperar! Mais uma vez aquele verbo que sempre nos acompanhou desde o primeiro momento (ver CRÓNICAS DE UMA MÃE EM CONSTRUÇÃO).
As horas passaram sem que déssemos conta porém no dia 21 tive um "chilique" nervoso e chorei... chorei muito... chorei de forma descompensada e aflitiva. Creio que foi o meu corpo a limpar todas as emoções retidas ao longo dos últimos meses. 
Com a noite chegou a calma e coração apaziguou. Ultimas horas com a minha, já enorme, barriga..
Eram 6 da manha e esta seria a ultima refeição tomada. Eu na cozinha a preparar o meu café e ele a dormir mais um pedacinho (possivelmente seria a ultima noite "bem" dormida dos próximos meses) na nossa cama. Pequeno almoço tomado, malas prontas, higiene feita: Francisco & Pedro chegou a nossa hora!
A A5 foi generosa e não nos obrigou a grandes pára/arranca e o trajecto Parede/Hospital da luz fez-se sem grandes sobressaltos (ou nenhuns) mas com muitos suspiros de ansiedade partilhados.
Demos entrada no hospital, fizemos a admissão e agora era esperar... mais. De novo. Na sala de espera, misturadas entre pessoas que aguardavam que as chamassem para realizar exames, análises, CTG´s, existiam mais corações a bater descompassados e acelerados. Mais bebes estavam prontos para nascer e muitos futuros pais ansiosos por abraçar as suas crias.
"Sara Ferreira" e o meu nome soou pela sala. Era agora. Despedi-me momentaneamente do João, pois sabia que ele seria chamado mais tarde, para ir ter comigo. E lá fui eu para a sala de preparação/recobro, onde mudaria de roupa, onde me colocariam o cateter (quem diria que meses depois este gesto fosse quase banal para mim e não me provocasse suores frios) e onde aguardaria que me fossem levar para o bloco.
Uma coisa que me ajudou em todo este dia foi o facto de eu conhecer todos os passos que iríamos dar. Ao optarmos por fazer o curso de preparação para o parto no Hospital da Luz, ministrado por técnicos/medicos/enfermeiros desta unidade hospitalar, ficámos a conhecer todo o piso da ginecologia/obstetrícia (ou o principal pelo menos): o bloco de partos natural,  bloco de partos de cesarianas de emergencia, o bloco de partos de cesarianas programadas, o recobro, a sala de espera dos pais... tudo passou a ser menos assustador, menos frio e mais familiar e mais humano. As enfermeiras Rute e Sara (principais orientadoras deste curso) foram umas excelentes mentoras e naquele dia quando a porta se abriu e vi o rosto da Rute o meu sorriso rasgou-se. Tudo ia correr bem. Tinha de correr.
O João foi chamado e com ele vinha a mala com a primeira roupinha dos nossos meninos e os documentos da mãe (eu). Tudo o resto era acessório e não fazia falta naquela sala e naquele momento.
A porta voltou a abrir-se e desta vez era a Dra Paula para saber como me sentia e a anunciar que tudo estava preparado para que o parto tivesse inicio pelo meio dia. Não foi. Passou para o meio dia e meia. Despedi-me do João com um até já (confesso que durante algum tempo equacionei deixar uma carta escrita para uma "eventualidade" até que decidi que isso seria dar espaço a bichinhos na minha cabeça e eu "sabia" que ia correr tudo bem... a nossa senhora estava a proteger-nos e nada iria mudar isso) pois sabia que ele seria chamado para o bloco para acompanhar o nascimentos dos nossos bebes e lá fui eu pelo próprio pé até ao bloco pois, como a enfermeira disse "Ela está optima e bem disposta, nada de camas".
Entrámos no bloco, um local asséptico mas que em breve se iria inundar de amor. E este era, estupidamente talvez, o momento que mais me assustava de todo o parto: a epidural. A informação por vezes retira-nos alguma calma, e depois de ter conhecimento de alguns casos de menos sucesso, estes minutos que se seguiriam assustavam-me.
O Dr. Pedro Gomes (todo satisfeito por brevemente ter mais um ser com quem partilhar o seu nome), anestesista, rapidamente se encarregou de me provar o contrario. Com palavras amigas, assertivas, que me levaram ao riso mas acima de tudo sempre a informa-me com calma do que se iria passar e quase sem dar conta a agulha cortava-me a pele e o liquido milagroso corria no meu corpo. Quase sem dar conta uma ave maria e um padre nosso ecoavam dentro de mim. Em breve as minhas pernas ja não me obedeciam. O momento estava proximo. Duas equipas de neonatologia para receber os nossos meninos estavam prontas, a pediatra estava pronta, o anestesista estava mesmo ali ao lado sempre preocupado se me sentia nauseada (coisa que aconteceu duas ou três vezes mas que rapidamente foi corrigida), enfermeiras e a maravilhosa Dra Paula com a sua toca da Betty Boop. É curioso como o facto de ver aquela toca ali me dava uma calma e confiança extras e um toque de humor num momento tao especial para nós.
O João entrou e sentou-se ao meu lado. De mãos dadas... estávamos prontos! Eu ja não sentia nada do peito para baixo (mais ou menos) mas deste lado do pano não parava de sorrir. Tirávamos selfies e olhávamos um para o outro escondendo um nervosismo e ansiedade maiores do que nós.
Confesso-vos que tudo aconteceu muito rapidamente a partir deste momento, ou então tudo o que sentimos era demasiado avassalador para mantermos a noção de tempo como ele realmente existe. Quase sem dar conta ouvimos um choro que jamais esqueceremos: o Pedro fazia-se anunciar naquela sala asséptica. Agora tudo era amor. O nosso bebe mais velho, o que se colocou desde o inicio no local de saída como que a dizer "este lugar é meu e ninguém me tira daqui" fazia-se ouvir.Um minuto depois, ainda não refeita da emoção, já o Francisco mexia nas mãos da Dra Paula. A minha dupla estava completa. A nossa família estava completa. O nosso pequeno clã nascia ali... naquele momento.
Foram segundos até colocarem os meus homenzinhos nos braços. Era uma rainha entre os seus príncipes e o seu rei. Sem lagrimas (sempre imaginei este momento a desfazer-me em lagrimas) mas com o meu melhor sorriso. Era altura para sorrir. Nada nos iria separar. Quando os levaram, rezei de forma atabalhoada e agradeci. Demorarei todos os dias da minha vida a agradecer. E ainda assim serão poucos.
O nosso mundo mudaria naquele momento. Nunca mais seriamos apenas dois. O nosso amor havia-se multiplicado vezes sem conta e deixaria de caber nas palavras que escolhi escrever e nos nossos corações para tomar proporções inimagináveis.


Dia 22 de Junho de 2017 foi o dia em que as nossas vidas mudaram:

Pedro, 13 horas e 9 minutos , 45.5 centimetros, 2 quilos e setessentos gramas
Francisco, 13 horas e 10 minutos, 45 centimetros, 2 quilos e duzentos e vinte gramas



Nota - A toda a equipa do Hospital da Luz que nos acompanhou neste dia o nosso muitíssimo obrigada. Todas as palavras que possamos escolher serão poucas em significado para vos agradecer. Bem-hajam. Fazem todos parte da nossa historia de felicidade!













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