17/06/2017

MEMÓRIAS DE UMA MÃE EM CONSTRUÇÃO #15


15 de Setembro (continuação)

A árvore de natal de dúvidas que levámos quando entrámos naquele gabinete estava agora muito mais iluminada. Havia tanto sobre o que pensar, tanto sobre o que colocar na balança,…
A conversa prolongou-se por várias horas, sem que nos apercebêssemos… sem pressas, sem sermos pressionados por um qualquer horário de gabinete médico. O sorriso e as palavras afáveis da Dra. Ana de alguma forma faziam com que ouvíssemos com muita calma e sem grandes dramas (e tudo poderia ser um enorme drama se mal gerido). E sabem o que trouxemos dessa conversa? Além de toda a informação que nos fez tocar as campainhas de emergência, o que nos ficou de toda a conversa foram mesmo as últimas palavras da Dra. “ espero sinceramente que esta conversa tenha servido apenas para vos informar e que não nos voltemos a encontrar neste contexto”… e assim foi!
Sempre que fechámos a porta da AVA trocámos olhares na esperança de ver espelhados nos olhos um do outro as mesmas duvidas mas acima de tudo as mesmas respostas… No fundo tanto eu como o João já havíamos tomado a nossa decisão… fazer um novo tratamento, uma nova FIV. Não sei se por medo de entrar neste processo, que nos parecia tao confuso e desconhecido das doações de óvulos, ou porque apenas tínhamos feito um tratamento e nada nos dizia que o segundo não seria positivo, a verdade é que ambos estávamos decididos a experimentar novo tratamento… e era tempo de conversar com o Dr. Paulo Vasco para saber se ele validava a nossa decisão (ainda que provisória).
Saídos dali e depois de marcarmos nova consulta era tempo de partilhar com os mais próximos, os pais, o que achávamos importante desta conversa tao marcante. É difícil para a geração dos nossos pais entender todo este processo, é difícil selecionar a informação que deve ser partilhada de modo a que não fiquem demasiado preocupados… ainda assim ouvimos: “ nem todas as pessoas têm de ter filhos para serem felizes, não se sintam pressionados a isso, primeiro está a vossa felicidade e saúde e nós estamos aqui para o que for preciso”… isto era no fundo o que precisávamos de ouvir, que não estávamos sós.
Relembro que a parte financeira nunca foi determinante na nossa decisão porém existem muitos casais que são obrigados a suspender a luta pelo sonho por falta de dinheiro… e isso eu nem sequer consigo imaginar, não sei mesmo como é que se vive com isso o resto da vida…


21 de Setembro
O regresso ao gabinete do Dr. Paulo. O dia em que colocaríamos sobre a mesa as nossas esperanças e perceberíamos se as expectativas que fomos criando nas ultimas horas seriam viáveis. Sem meias verdades, sem falsas esperanças (palavras que habitavam nas nossas vidas nos últimos meses) percebemos que também o Dr. Paulo concordava em continuar… com muito foco, reformularíamos a terapia mas iriamos persistir no sonho porque afinal de contas, segundo ele e muito bem, ainda era viável atá ao último ovulo! Eram poucos mas até que existisse um valia a pena lutar por ele.
Mais seringas, mais injeções, mais testes aos nossos limites mas acima de tudo mais esperança.
Os meus limites há muito que haviam sido ultrapassados por isso… tínhamos de ir à luta. Perder uma batalha não implicava perder a guerra a favor da fertilidade. E era isso que nos tinha acontecido. Tínhamos perdido uma batalha (gigantesca e desgastante) mas nós sempre visualizámos a vitória. E por ela tudo fazia sentido, por ela tínhamos de continuar… até que esse dia chegasse!


14 de Outubro
Os dias foram passando por nós de forma lenta (é sempre preciso esperar pelo ciclo menstrual para iniciar todos os procedimentos), tentando viver os dias sem esta obsessão pelos números, pelas datas… mas a verdade é que muito difícil. Há meses que apenas nos regemos por horários rígidos, por esperas mais ou menos longas, por momentos que não podem ser adiados ou antecipados, por gerir uma ansiedade com o mesmo afinco com que se gere a esperança.
Hoje é um dia importante. Hoje é o primeiro dia de mais batalha… rumo à vitória. À nossa vitória.

15 de Outubro
Hoje iriamos começar nova medicação. O Dr. Paulo Vasco tinha-nos alertado para o facto de uma das injeções não ser muito fácil de dar/manipular (como se alguma o fosse para mim) e que o melhor seria ir à clinica para a receber pois a seringa tinha um automatismo que fazia recolher a agulha e tinha de ser dada sem hesitações. Claro que nada neste caminho estava ser fácil para nós e alguém lá em cima quis que o dia de dar a injeção calhasse num fim de semana em que a AVA estava fechada. Eu… bem, eu… fui ver vídeos de como administrar a injeção vezes sem conta até sentir dentro de mim a certeza de que o faria bem. Para muitos isto seria um gesto banal mas eu relembro que era a mulher que com 30 e muitos anos continuava a suar sempre que sabia que ia tirar sangue ou levar uma vacina, que tinha de tirar sangue deitada para não desmaiar. Por isso não nada de normal no facto de eu estar a ver vídeos de como dar injeções. Que distante estas dessa pessoa sara, pensei eu varias vezes. Hoje manipulas frascos, trocas agulhas, escolhes pregas na pele, espetas a agulha na carne sem hesitar e ficas a sentir o líquido a penetrar no teu corpo… muitas vezes a chorar é certo e quase todas a rezar. Fazendo-o sozinha, por opção, não sei explicar porquê mas foi assim que o tornei possível mas sempre com a certeza de que ali ao lado, à distância de uns metros havia alguém a gritar “Já deste? Estás bem? Já posso ir aí? E foi neste equilíbrio desequilibrado que íamos vendo os dias a passar. Mais duas injeções dadas… agora é esperar! De novo!

(continua)


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