O dia de ontem parecia tirado de uma das séries que sigo religiosamente há anos... Grey's Anatomy. Quando a minha mãe me ligou a dizer que a minha avó tinha ido às urgências o primeiro pensamento foi "mais uma mazela da idade, os seus 89 anos lá fizeram mais uma das suas", caí no facilitismo de pensar "mais um medicamento a juntar ao seu vasto cocktail e a coisa passa". Errada. Tão errada. Depois da entrada nas urgências veio o "vai ficar internada para fazer mais exames" , aí todas as campainhas de alarme soaram dentro de mim e pensei "não te quero aí avó, nesse sitio é que eu não te quero ver". Novo telefonema e a promessa que de no dia seguinte (ontem) haveria uma conversa ao meio dia com a familia e com a equipa medica que a viu.
O meio dia chegou. A conversa aconteceu. O meu telefone tocou. E nunca mais eu saí do meio-dia. O meu relógio parou ali. E foi mesmo ali que eu entrei na Grey's Anatomy, foi ali perante o diagnostico de um tumor no cérebro que eu vi o Dr. Sheperd falar com a sua Meredith sobre um caso de uma senhora de 89 anos que teria de operar mas que iria correr bem, afinal de contas era um caso simples. E andei por aqueles corredores a cruzar-me com o jeitoso Jackson Avery, com a muito rabugenta mas querida Miranda Bailey, com a doce April, com o não mesmo jeitoso Karev,... andei por ali perdida à espera. No final do telefonema a frase que mudava tudo "Sara os médicos ainda não decidiram o que vão fazer, só na próxima segunda feira é que saberemos". Como?? Mas o meu Dr. Sheperd já está pronto. Ele disse que era simples! Mais ninguém o ouviu? Tropeço na Dra. Yang e ouço-a dizer " nem penses em operar, não vai aguentar, muito velha, coração muito fraco, muito magra. Esquece está condenada. Passa para outro". Não foi preciso esperar por segunda feira. O telefone voltou a tocar à noite, hora em que se fingia que se jantava, em que se falava dos temas mais banais, mais parvos para evitar tocar onde doí. À hora de jantar a decisão a minha Dra. Yang estava certa... certa no diagnostico nada certa na cura. Mimar era o remédio. É o que nos resta. E naquele momento eu quis entrar pelo plasma dentro e agarrar-me a todas as personagens de ficção que criei neste momento de dor para os obrigar a voltar atrás no guião. Voltar a darem-me a esperança que a realidade me estava a roubar. Por isso Dr. Sheperd eu continuo à sua espera...






