Os dias são todos iguais e todos
diferentes, Todos têm 24 horas mas o que fazemos com essas 24 horas só a nós
diz respeito e é isso que torna todos os dias que aparentemente são iguais em
algo diferente. Dentro dos dias iguais
há uns que se destacam, há uns que nos marcam de uma forma tão profunda que já
não nos conseguimos lembrar de como eramos antes. Mas eu lembro.
Eu lembro-me do que me roubaste,
eu lembro-me do que provocaste em mim, eu lembro-me do que me forçaste a dar,
eu lembro-me de tudo o que me obrigaste a viver naquele dia 14 de Fevereiro de
2007.
Recordo-me de chegar ao
escritório, de me sentar, ligar o computador e sentir que o meu telemóvel
estava a vibrar. Olhei com aquele olhar displicente com que realizamos algumas
tarefas repetitivas do nosso dia a dia. Era o vibrar da morte. Ela acabara de
chegar à minha vida e ao meu telefone e não era por eu não ler aquela mensagem
que ela se iria embora. Finalmente tiveras a coragem cobardia de puxar o gatilho.
Calculista e frio vestiste a
roupa que eu te oferecera no passado, colocaste a minha foto sobre a almofada,
colocaste o gorro que eu usara anos antes em NY (uma doce memória para mim),
escreveste uma carta para o teu primo onde lhe deixaste varias ordens (uma
delas incluía-me), bebeste, engoliste um numero incalculável de comprimidos,
escreveste uma mensagem no telefone dirigida a mim (mas que deus já não quis
que tivesses força para enviar) e… disparas-te.
Morreste.
Quase me mataste, quase me deixei
levar por ti, pelas perguntas sem resposta que habitaram no meu cérebro durante
meses, pelo desespero de não entender se fora eu que te dera o motivo para
premires o gatilho, por voltar a ser feliz ao lado da minha família e do homem
que escolhera (e que é a pessoa mais importante da minha vida). Quase me
mataste. Quase me deixei ir por uma dor que não sabia existir, pela duvida que
plantaste em mim. Foste mau, muito mau. Tu sabias que o suicídio era palavra
proibida na minha família, que era a forma de morrer que eu não conseguiria aceitar (como se conseguisse alguma, burra). Tu sabias. E só hoje eu sei que tu
sabias. Calculista sabias que aquele dia iria ficar marcado para sempre na
minha vida. Que mesmo tendo escrito uma mensagem onde me dizias que ias partir
(como se houvesse hipótese de voltares se te apetecesse) e onde abençoavas a
minha união com o amor da minha vida, sabias que o dia de São Valentim
terminaria ali para nós (eu e ele não tu). Levaste contigo o nosso passado e o
meu futuro. O direito que eu tinha de escolher se queria ou não comemorar uma
data a que nunca liguei. Fizeste-o de forma a que nunca mais me esquecesse
(como se não soubesses que tenho uma memoria terrivelmente boa). Mas sabes passaram sete anos. Sete anos onde
passaram muitos comprimidos, muitas sessões com psicólogos e psiquiatras,
muitas lagrimas, muito desespero, muita angustia, muitas perguntas, poucas
respostas. Mas também passaram sete anos de alegrias, de uma luta interior que
acabei por ganhar, de risos, de conquistas, de gargalhadas, de memórias boas,
da confirmação de um amor maior. O maior amor da minha vida. O amor que me
levou ao altar, que me fez jurar perante Deus, a família e os amigos mais
queridos (não couberam todos infelizmente) que ficaríamos juntos até que a
morte nos separasse… irónico a morte de novo. Mas esta morte é a morte natural,
a que a vida tem guardada para nós e não a morte vingativa que tu usaste contra
mim, contra a tua família, contra todos os que gostavam de ti e tu não viste.
Demorei sete anos a escrever
isto… sete longos anos. E sabes? Hoje descobri que eu mereço comemorar o dia de
amanha se EU quiser e não porque tu assim o decidiste. Podes até achar que
serei egoísta… mas eu e o meu amor maior
precisamos de comemorar esta data. Está na hora de criar memórias boas e
arrumar as dores na biblioteca da história da nossa vida. Está na hora de parar
de chorar a morte e de sorrir ao amor.
Este ano eu e o meu amor maior
teremos o nosso dia de São Valentim.